Novas reflexões

Mistérios Arqueológicos - Parte 1

Vestígios de uma escrita cosmogônica no Brasil

Que povos teriam sido esses, sabendo-se que os indígenas naturais encontrados nestas terras brasilienses não poderiam ter sido os seus autores e até mesmo venham estes considerarem sagradas estas complexas manifestações de ‘arte’ em tantos lugares como elas se mostram?

 

Por J. A. FONSECA*

De Itaúna/MG

fev/mar - 2025

jafonseca1@hotmail.com

 

Parte da enigmática ‘escrita’ do Lajedo JK.

 

Há, sem dúvida, algo parecido com uma linguagem simbólica de difícil compreensão permeando a chamada ‘arte rupestre’ do Brasil em praticamente toda a sua extensão territorial. Alguns destes registros, com elevado grau de sofisticação, deixam dúvidas de que poderiam tratar-se apenas de ‘trabalhos’ aleatórios de um homem primitivo que teria ‘passado por ali’ e ao demonstrarem critério e estranheza em todo o seu conteúdo misterioso e elevada capacidade mental para organizá-los e executá-los, sua explicação se torna ainda mais contraditória.

 

Os estudiosos sentem dificuldades para compreender seus conteúdos e a sofisticada execução de determinados conjuntos líticos, quer tenham sido eles cortados em pedra ou pintados, por causa da sua real estranheza e inclusão de elementos desconhecidos e até mesmo de caráter universal, como é o caso destes que estamos analisando.

 

Assim, pode-se dizer que existe, de fato, uma espécie de linguagem simbólica, cosmogônica, gravada em terras brasileiras em larga escala e localizada em muitas outras regiões. Pergunta-se então: – Por que razão sua manifestação se estenderia por todo o território brasileiro, mesmo que em alguns casos específicos ela se apresente de forma mais simplificada e, em outros, se mostrando com maior expressividade em sua manifestação, à semelhança de páginas destacadas de um livro simbólico ou de uma escrita sagrada desconhecida?

 

Que povos teriam sido esses, sabendo-se que os indígenas naturais encontrados nestas terras brasilienses não poderiam ter sido os seus autores e até mesmo venham estes considerarem sagradas estas complexas manifestações de ‘arte’ em tantos lugares como elas se mostram?

 

A condição de estarmos intitulando estes registros de cosmogônicos evoca a sua definição junto da filosofia oriental e a simbologia utilizada por esses antigos povos para falar sobre a criação do universo e sobre a ciência intitulada Cosmogonia, que trata da existência dos objetos celestes como os planetas, as estrelas, as galáxias, etc.; e como eles teriam se formado, como também de parte das mitologias que procuram descrever a criação dos mundos e dos homens. 

 

É, pois, nosso intuito demonstrar que a incidência desta rica simbologia é muito forte no Brasil e que isto, certamente, haverá de ter um significado oculto sustentando a sua presença em muitos lugares e que não pode ainda ser compreendida, mas que comprova, em seu silêncio milenar, que não poderia tratar-se de produto aleatório saído de mentes pouco hábeis e não conectadas com uma outra realidade, provavelmente de caráter místico ou religioso, ligado a um passado distante e desconhecido de nosso país. Sua forte incidência simbólica associada a um tipo de conhecimento secreto mostram-nos por meio de seus traçados enigmáticos e harmoniosa representação, que sua presença não poderia estar associada a um tipo de acontecimento casual ou a uma espécie de ‘arte’ desconexa ou distante de uma realidade espiritual ou transcendente.

 

É difícil para nós ver tudo isto representado em tantos lugares e de forma tão inexplicável e dizer que nada venham significar, e que todas estas ricas e habilidosas estruturas de cunho notadamente incomum e envoltas pelo mistério, teriam de ser compreendidas apenas como produto de ociosidade oriundo de um grupo de pessoas entusiasmadas e desconectadas de seu mundo real.

 

Observou-se que esta linguagem cosmogônica gravada em diversas regiões do Brasil é quase sempre executada em baixo relevo, à exceção de algumas destas representações, com um grau bem menor de incidência, que foram pintadas nas pedras, quase sempre na cor avermelhada.

 

O mapeamento dos diversos locais onde esta linguagem desconhecida pode ser encontrada mostra que ela era conhecida praticamente em todo o território brasileiro. Mostraremos em seguida dois casos importantes no Brasil (por causa de sua forte incidência) e logo após destacaremos alguns casos conhecidos onde se podem ver manifestações líticas com a presença das principais figuras que fazem parte deste complexo simbólico indecifrável. 

 

Estes dois locais que abordaremos a seguir mostrando este tipo de escrita cosmogônica manifestada no Brasil mostra gravações em baixo relevo, em lajedos de pouca inclinação no solo, contendo uma grande quantidade destas figuras simbólicas, em geral de formas circulares, sendo que algumas delas possuem ligações firmadas por meio de riscos profundos que também se unem a outras figuras simbólicas, construindo uma espécie de contexto inexplicável, mas harmonioso e carregado de um sentido lógico e de difícil compreensão.

 

Existem, excepcionalmente, dois casos conhecidos desta escrita simbólica e enigmática no Brasil que nos causam grande perplexidade por causa de seu volume e de sua grande semelhança e conteúdo em ambos os casos, como se fossem páginas petrificadas de um livro pré-histórico que desafia a argúcia dos estudiosos. Um deles localiza-se no estado de Goiás e é conhecido como letreiro do Lajedo JK e um outro conhecido como inscrições dos Lajedos do Pantanal, próximo de Corumbá, no Mato Grosso do Sul.

 

O mistério que envolve estes dois sítios é carregado de tão elevada expressividade que, se colocássemos algumas imagens deles lado a lado, teríamos dificuldade para identificar quais seriam as do Lajedo JK e quais seriam as do Lajedo do Pantanal. Isto tanto em relação à sua incrível simbologia gravada em pedra, quanto à condição com que foram executados os ‘trabalhos’ de gravação, apesar de se localizarem em locais bem distantes um do outro.     

   

Lajedo JK – Goiás

 

Visão aproximada do conjunto de insculturas do Lajedo JK em Goiás.

 

Examinaremos primeiramente o extenso conteúdo do livro simbólico de pedra do Lajedo JK, mostrando a sua extensa simbologia e o trabalho de insculturas que ali foi executado. Este autor, quando lá esteve, desenvolveu um minucioso trabalho de fotografias por grupos de inscrições sem contorno com giz e após com a utilização do preenchimento dos mesmos.

 

Tal esforço permitiu depois desenhar os grupos das figuras isoladas e depois agrupá-las em um mapa mostrando, aproximadamente, a sua situação atual, considerando-se que muitas das figuras originais gravadas na pedra já não podem mais ser vistas como as demais, por causa dos desgastes naturais e exposição ao sol e às chuvas fortes da região. Alguns destes símbolos ainda podem ser vistos apenas levemente marcados e outros já não podem ser mais vistos com facilidade.  

 

Os moradores da região chegaram a atribuir aos negros do período da escravatura a autoria desta simbologia complexa riscada na rocha, porém, estudos arqueológicos que foram feitos no local apontaram que sua idade pode variar de 4.000 a 6.000 anos. Desta forma fica claro que nem aos negros nem aos povos indígenas poderiam ser atribuídas a idealização e a execução daquelas insculturas, por causa de sua longevidade e por falta de condições adequadas que contrariariam os princípios culturais existentes nas tribos encontradas na época do descobrimento e daqueles outros que foram trazidos ao Brasil pelos africanos.

 

A cultura regional chama estas insculturas do Bisnau de “letreiros do lajedo” e não se tem notícia de quem as poderiam ter feito. Elas se espalham por cerca de 600 m2 na rocha, tipo arenito clássico, cuja formação pode remontar a 65 milhões de anos. Elas impressionam por causa de sua variedade de signos desconhecidos gravados em baixo relevo na pedra e pela complexidade de suas figuras, muitas delas interligadas entre si.

 

O que nos causa uma sensação de impotência é ver que em curto espaço de tempo estes registros milenares podem ter desaparecido quase que completamente, por causa de sua exposição permanente ao tempo, às chuvas, ao sol e ao vento. Na realidade, caracteres como estes do Bisnau vêm se tornando, com o passar dos dias, em verdadeiras incógnitas no Brasil, pois além de poderem ser encontrados em regiões variadas em todo o país, suas características e motivos não deixam pistas para que possamos identificar com segurança os seus autores ou decifrar o conteúdo de sua extensa manifestação.

 

Mas é importante verificar a incidência de gravuras como estas do Bisnau gravadas em outros lajedos e de forma muito semelhante no Brasil, como é o caso daquelas que foram encontradas na região de Corumbá, no Mato Grosso do Sul. Estas também possuem uma grande concentração de traçados e mostram um comportamento muito próximo das insculturas de Goiás, tanto no que se refere à estética dos conjuntos gravados em baixo relevo, quanto à condução e escolha da simbologia apresentada em ambos os casos, como se fora uma escrita primitiva comum entre os seus autores.   

 

Lajedo do Pantanal – Mato Grosso do Sul

 

Insculturas gravadas no Sítio MS-CP-03, próximo de Corumbá (MS).

 

Vimos recentemente um vídeo sobre o Pantanal mato-grossense onde foram registradas algumas imagens de figuras gravadas em pedra localizadas próximo ao rio Paraguai na região de Corumbá (MS) e que ainda não eram conhecidas dos pesquisadores. Estas imagens mostram figuras em baixo relevo, muito bem elaboradas, que representam uma estranha simbologia que se assemelham a muitas outras que são também encontradas em outros estados do Brasil.

 

Estas inscrições na região do Pantanal, ao que parece, remontam a um tempo muito antigo e o fato de estarem perdidas no meio da mata e em lugares de difícil acesso, mostra que se tratam mesmo de algo especialmente remoto e desconhecido.

 

Símbolos como estes foram encontrados também em lajedos do Pantanal, próximo à cidade de Corumbá, em Mato Grosso do Sul e é sobre estes que estamos nos detendo agora. A arqueóloga Maribel Girelli da Universidade de Vale do Rio dos Sinos- Unisinos, RS, fez um estudo completo sobre estas insculturas, tendo como referência os estudos realizados pelo Projeto Corumbá, inserido no Programa Arqueológico do Mato Grosso do Sul, iniciado em 1985. Neste trabalho ficou evidente a complexidade das manifestações artísticas de povos muito antigos daquela região e a ligação que estes demonstram possuir com uma simbologia bem remota e que também se acha manifestada em muitas outras regiões do Brasil como iremos ver.

 

Já havíamos visto outros trabalhos arqueológicos tratando destas inscrições como, por exemplo, o de José Luis dos Santos Peixoto, arqueólogo da Universidade de Mato Grosso do Sul, que abordou os assentamentos de populações indígenas na região do Pantanal, Maciço Urucum e adjacências, mostrando também este estranhíssimo agrupamento de grafismos variados naqueles lajedos e que começaram a ser estudados desde a década de 1990, por meio do Projeto Corumbá de estudos arqueológicos. 

 

Maribel Girelli diz que “a quantidade de energia gasta na composição destes imensos painéis, a uniformidade de sua composição temática e estrutural, leva a propor que não se trata de construções ocasionais, mas realizações importantes da cultura dos grupos produtores; os longos sulcos sinuosos, ligando grafismos circulares, característicos do núcleo central de cada um dos sítios, faz conjecturas que talvez estejam representando o ambiente no qual se encontram, isto é, o emaranhado de rios, canais e lagoas, e que tenham um forte sentido ritual, ligado a este entorno.”

 

Sua descrição aborda as gravuras rupestres que foram encontradas em quatro lajedos nos arredores de Corumbá, declarando que em seu trabalho ela teria se utilizado de dados do Projeto Corumbá iniciado em 1985 e executado pelo Instituto Anchietano de Pesquisas (IAP), a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) e a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

 

Os trabalhos executados por José Luis dos Santos Peixoto foram realizados em 1995 e além do material cerâmico encontrado, envolveu também os sítios com os petroglifos na região ao Pantanal acima referenciados e que são constituídos de figuras variadas justapostas ou interligadas por linhas profundas, não demonstrando tratarem-se de simples rabiscos aleatórios, mas de um conjunto complexo de imagens de difícil compreensão.

 

Os estudos arqueológicos que foram feitos em torno destes estranhos conjuntos de petroglifos no Brasil não possuem ainda elementos seguros que possam dar um sentido claro aos reais significados do que eles possam estar representando. A arqueóloga Maribel Girelli argumenta que as considerações levantadas nos estudos já feitos nesta região e que consideravam que estas manifestações estariam ligadas apenas à estética ou a arte pela arte simplesmente, não é mais sustentável hoje, principalmente com a descoberta de figuras complexas em locais de difícil acesso e que estes variados painéis “possuem estrutura e coerência interna” e que por isto, não poderiam ter sido executados ao acaso.

 

 

Nossos argumentos caminham também nesta direção. A tese que temos apresentado em nossos artigos em relação a determinados grupos de inscrições rupestres no Brasil, leva em consideração que estas apresentam complexidades inexplicáveis em muitos casos e que não são claros os seus objetivos em muitos outros, principalmente em relação às suas próprias condições como manifestações de ‘arte’ e aos elementos com os quais eles são constituídos.

 

Os estudos dizem que os lajedos onde estas enigmáticas figuras se acham inscritas são formados pela sedimentação do minério de ferro erodido dos morros, conforme anotações de campo feitas por Jairo Henrique Rodge, e se acham localizados em áreas de pouca inclinação e próximas de córregos situados, em parte, da bacia do rio Paraguai, em regiões próximas à cidade de Corumbá, MS. 

 

A complexa simbologia desta região do Pantanal foi amplamente estudada e registrada pelos arqueólogos do Projeto Corumbá e foi, em parte, copiada por este autor e inserida neste artigo, mostrando três dos sítios estudados que se acham localizados em fazendas da região e não muito distantes uns dos outros.

 

É importante focar estes petroglifos do Pantanal com atenção e seriedade e os registros que deles foram feitos pelos estudiosos da chamada ‘arte’ rupestre do Brasil, porque representam, em verdade, vastos ‘documentos’ gravados em pedra sobre a existência de uma comunidade desconhecida de nossa história e de uma simbologia complexa e ao mesmo tempo extremamente enigmática. Vemos que ela guarda profundas semelhanças com uma espécie de escrita simbólica, provavelmente de caráter religioso e universal, pois que podem ser também encontradas gravadas em diversas outras regiões de nosso país.

 

É um fato extraordinário poder mostrar esta grande semelhança que existe entre as figuras insculpidas no Pantanal e a sua misteriosa distribuição com aquelas que fazem parte do livro de pedra do Lajedo JK, em Goiás. Esta similaridade chega a tal ponto que se colocarmos algum trecho destas inscrições de ambos estes sítios diante de qualquer pessoa, ela terá dificuldade de identificar o que pertence a um e o que pertence ao outro, exceção feita apenas a um estudioso que os tivessem pesquisado a fundo e conhecesse a sua conformação. Vejamos uma demonstração:  

 

  

Na continuação deste artigo iremos apresentar mais detalhadamente os sítios arqueológicos do Pantanal que já foram estudados para que possamos fazer novas comparações com as insculturas do Lajedo JK e ver suas semelhanças, e também mostrar exemplares desta curiosa simbologia vastamente perceptível em todo o território brasileiro. 

 

* J. A. Fonseca é economista, aposentado, espiritualista, conferencista, pesquisador e escritor, e tem-se aprofundado no estudo da arqueologia brasileira e realizado incursões em diversas regiões do Brasil. É articulista do jornal eletrônico Via Fanzine (www.viafanzine.jor.br) e membro do Conselho Editorial do portal UFOVIA. E-mail jafonseca1@hotmail.com.

 

- Fotografias e ilustrações: J. A. Fonseca.

 

- Itaúna (MG), dez/24-jan/fev/25.

 

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