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São Paulo:

Morre o construtor do primeiro satélite brasileiro

O desejo de Júnior Torres de Castro ter um satélite próprio começou em 1957,

quando a União Soviética lançou o Sputnik, dando o primeiro passo da Era Espacial.

O geofísico Júnior Torres de Castro era natural de Botucatu (SP).

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Essa é a história de um brasileiro que inspira, de quem correu atrás de seus sonhos e ainda se preocupou em tornar o mundo um lugar melhor. Faleceu na última semana, no dia 17 de janeiro, aos 85 anos, o geofísico Júnior Torres de Castro. Natural de Botucatu (SP), o pesquisador ficou conhecido internacionalmente por ser a primeira pessoa física – e a única, até hoje, que se tem notícia – a lançar um satélite próprio. Batizado como DOVE-OSCAR 17, o equipamento, que acaba de completar 28 anos de seu lançamento, também foi o primeiro do Brasil dedicado ao radioamadorismo.

 

Formado em engenharia elétrica pela USP - Universidade de São Paulo e engenharia eletrônica pela Columbia University in the City of New York, Castro viveu ainda na Suécia, onde fez mestrado em geologia, geofísica e doutorado em física. Conseguiu estabilidade financeira com uma empresa do ramo de perfuração de poços artesianos. Mas, apesar do vasto currículo e o sucesso financeiro, foi como radioamador que ele realmente se sentia realizado.

 

O desejo de ter um satélite próprio começou em 1957, quando a União Soviética lançou o Sputnik, dando o primeiro passo da Era Espacial. Castro, então com 24 anos, conseguiu captar os sinais do equipamento e, a partir daí, nutriu a vontade de construir um para si participando de diversos congressos e cursos nos Estados Unidos e na Europa. Ele lembrava que, no início, se sentia um "peixe fora d'água" e era visto com desconfiança. Porém, com muita determinação, foi ganhando experiência e prestígio junto à comunidade científica internacional.

 

Quase 20 anos depois do lançamento soviético, Castro comandou a construção do Little Brick, ou Tijolinho, o primeiro modelo de seu satélite feito com componentes de mercado. Embora funcionasse com perfeição na Terra, a máquina não poderia ser colocada em órbita, pois a estrutura não suportaria a pressão atmosférica. Mesmo assim, em 1977, ele e seu projeto foram convidados a participar de um congresso na The University of Utah, onde pode fazer uma demonstração.

 

Arrancando elogios dos cientistas espectadores, Castro conseguiu diversas recomendações necessárias para que fabricantes de equipamentos espaciais apoiassem sua iniciativa. Dessa forma, conseguiu peças doadas ou ainda adquiridas a preço de custo, além do apoio de um laboratório norte-americano para a construção. Concluído, o DOVE era um microssatélite em forma de cubo, medindo 23 cm de largura e comprimento, por 21 cm de altura e pesando quase 13 kg. O lançamento ocorreu no dia 21 de janeiro de 1990, a partir da base espacial de Kourou, na Guiana Francesa (mesmo local de onde partiu, no ano passado, o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas [SGDC] do Brasil).

 

Entre as funcionalidades do DOVE estava uma característica única: ele transmitia mensagens de crianças de diversas partes do mundo que pediam a paz entre os povos. "Eu nasci e cresci no meio da guerra. Vi a violência e muita gente morrendo. Senti medo, muito medo. Não queria ver o ódio nunca mais. O que eu quero é que a humanidade viva em paz", dizia a gravação de um pequeno vietnamita, transmitida pelo satélite de Castro.

 

O DOVE – que também significa "pomba" em inglês – teve uma vida útil estimada em 6 anos, mas operou até 1998, quando sua bateria descarregou e sofreu uma avaria no computador de bordo. Na época, seu idealizador ganhou notoriedade e chegou a ser convidado pela NASA para assistir o lançamento do ônibus espacial Atlantis. Pelo nobre gesto, foi um dos poucos brasileiros a ser cotado para o Prêmio Nobel da Paz.

 

* Informações do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações/Governo Federal, Brasil.

    22/01/2018

 

- Foto: MCTIC/reprodução.

 

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