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Zona rural:

Natureza da Picada e a exótica Gruta do Índio

O bairro da Picada guarda belezas naturais incríveis, além de suas tocas, grutas e cursos d’água. Numa pequena expedição, percorremos vários quilômetros de belezas naturais, a partir da Picada, até a Gruta do Índio, localizada próxima ao distrito de Sobradinho de Minas.

 

Por Pepe Chaves*

De São Tomé das Letras

Para Via Fanzine

03/08/2022

 

Fizemos um almoço leve e subimos a Serra da Picada (ao fundo) onde registramos suas belezas naturais, para depois visitarmos a magnífica Gruta do Índio.

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Expedição da região da Picada

 

No dia 01/08, o empresário e explorador da natureza Maurício Kairuz e este autor partiu em uma pequena expedição na região da Picada, zona rural de São Tomé das Letras-MG. Nossos objetivos eram diversos: verificar a existência de pinturas rupestres na região; verificar a existência de possíveis tocas ou grutas desconhecidas e registrar as conhecidas; visitar a Gruta do Índio, localizada na divisa da Picada com o distrito de Sobradinho de Minas; fazer registros em imagens de toda a região visitada.

 

Esta é a toca de Chico Taquara na Picada. O local em que o lendário Taquara habitou guarda hoje um pequeno altar com imagens católicas colocadas pela população local.

 

Acostumado com incursões pelas matas, Maurício Kairuz se muniu e me cedeu equipamentos adequados para seguimos a jornada pelas montanhas da Picada, sob o seu comando tático. Carregando somente água para o nosso consumo, percorremos um total de 8,5 quilômetros entre altos e baixos da extensa montanha. Vale destacar que o Toby, cachorro que mora comigo, nos seguiu por todo o trajeto.

 

A toca do Chico Taquara na Picada

 

Fizemos um almoço leve, um pequeno intervalo e saímos pela Estrada da Picada, buscando o acesso para o alto da serra. Nossa jornada teve início com a visitação a uma das grutas habitadas por Chico Taquara nesta região da Picada, localizada próxima ao Gnomo Camping Rock. Antigo morador da cidade no século 19, Chico Taquara era um senhor diferenciado, especialmente pelo seu estilo de vida peculiar.

 

Diz-se dele que, suas barbas e cabelos longos eram hidratados com mel. Conta-se que esta figura lendária curava pessoas, conversava com animais e costumeiramente, pássaros pousavam em seus ombros. Para alguns, Chico Taquara seria uma criatura intraterrestre (vindo de supostas civilizações que habitariam o interior da Terra), e por isso, detinha certos poderes que a nossa humanidade desconhecia e acreditava se tratar de “milagres”. O enigmático Chico Taquara habitou várias tocas na região de São Tomé das Letras ao longo de sua vida no século 19, até desaparecer sem mais explicações.

 

Maurício Kairuz faz registros da toca de Chico Taquara, observado pelo cão Toby.

 

Segundo narra sua história, ele habitava determinadas tocas da região, de acordo com a estação do ano, buscando sempre se abrigar contra a direção do vento. Inclusive, no ano passado, Kairuz e eu também visitamos uma outra toca habitada por ele, esta, na região da Pedra Furada, próxima a região central da cidade, onde constatamos e fotografamos em seu teto, algumas pinturas rupestres bastante desgastadas.

 

Eu já havia visitado esta toca da Picada noutra ocasião, mas Kairuz a visitava pela primeira vez. Ali foi montado (possivelmente por moradores crentes locais) um humilde altar com imagens católicas, abrigado pela marquise da toca. Esta toca é de pouca profundidade, mas capaz de abrigar uma ou duas pessoas contra a chuva e o vento.

 

Identificada uma pintura rupestre na parte alta da toca.

 

Ali encontramos antigos registros de pinturas rupestres da cor vermelha [acima]. Bastante desgastados pelas intempéries e pelo tempo. Conseguimos identificar pelo menos um dos caracteres na cor vermelha. Conhecido pelo seu formato de pente, este mesmo caractere se encontra na Gruta de São Tomé das Letras, ao lado da igreja matriz da cidade. De acordo com o pesquisador arqueológico J.A. Fonseca, este caractere também foi encontrado em diversos sítios arqueológicos, em distintas regiões brasileiras [veja abaixo].

 

Detalhe da pintura em vermelho já desgastada, impressa na parte alta da toca. Este símbolo, conhecido como "pente", pode ser visto também na gruta da praça matriz de São Tomé da Letras.

 

Também localizamos ali, possíveis restos de outras antigas pinturas na cor vermelha, já praticamente desaparecidas pelas ações do tempo, vento, chuva e porosidade da pedra. Lamentavelmente, próximo ao altar da toca, verificamos restos de cola e papel na parede de pedra (possivelmente colaram cartazes ali no passado), cobrindo uma região da parede em que havia antigas pinturas.

 

Ao lado do altar na toca, encontramos restos de antigas pinturas, cobertas com restos de papel e cola, possivelmente de antigos cartazes colados na parede de pedra.

 

No entanto, alguns metros ao lado direito acima dessa toca do altar e suas pinturas desgastadas, existe uma outra, igualmente, muito interessante, mas nem diferente. Esta outra toca fica numa parte alta da pedra (cerca de dois metros do chão), criando assim, um verdadeiro abrigo acima do solo, especialmente para se dormir – já que seu teto é baixo e a toca não cabe uma pessoa de pé. Acreditamos que, tendo habitado a toca ao lado (do altar), provavelmente, Chico Taquara usava este local para dormir.

 

Ao lado da Toca do Chico Taquara encontramos esta, perfeita para se dormir e localizada a quase dois metros do solo.

 

Vale destacar que, na temporada de seca de 2021, a região da Picada foi fortemente castigada pelas queimadas, onde muitos hectares foram consumidos pelo fogo em diversas propriedades da região. Percorremos por alguns quilômetros constatando diversas árvores frondosas totalmente carbonizadas, além das marcas do fogo em diversas partes do nosso trajeto.

 

Um dos muitos paredões encontrados na subida da serra.

 

Subindo pela serra

 

Saindo desta região das tocas, iniciamos uma árdua caminhada serra acima, buscando o topo do Pico da Picada, numa região coalhada de rochas, oferecendo ao longo do percurso, diversas pareidolias em suas formações inusitadas.

 

 Formações rochosas no topo da serra.

 

Subimos rentes aos enormes paredões de rochas, sempre verificando as possíveis existências de tocas ou pinturas rupestres. Nos dividimos pelo caminho nesta checagem e Kairuz encontrou uma região considerada interessante, a qual ele afirmou desejar visitar noutra ocasião para inspecioná-la melhor. Se trata de uma mata fechada com enormes paredões no seu interior e de difícil acesso. Ele acredita que este vasto local possa abrigar grutas ou pinturas.

 

Muro de pedras encontrado na parte superior da serra.

 

Um pouco mais acima, após uma subida bastante íngreme, atingimos o topo da serra, chegando ao seu pico, onde encontramos alguns muros feitos de pedras devidamente empilhadas sem argamassa. Um se encontrava numa parte mais baixa, e subia, se estendendo pelo terreno superior.

 

 

Este autor em uma das duas tocas encontradas no topo da serra.

 

Alto da serra: muros de pedras e paredões

 

No alto da serra, nos dividimos e checamos vários locais entre os belos paredões de rocha da região. Ali encontramos duas tocas, uma delas, apesar de pequena, bastante aconchegante como abrigo. Nesta, foi feito um muro de pedras cobrindo sua quase toda sua parte frontal, porém, este muro se encontrava todo caído do lado de dentro da toca. Em torno do local havia também outros muros de pedras com não mais de um metro de altura. Ali, supomos que aquela pequena e aconchegante toca natural, certamente, abrigou alguém em algum momento do passado.

 

Maurício Kairuz checa o teto de uma toca, cujo muro frontal se encontra caído dentro dela.

 

Em torno de nós estava toda a beleza da paisagem com seus muros antigos no topo da serra, além de seus paredões cheios de locas e formações rochosas que mais parecem obras de arte da natureza.  Fizemos alguns registros fotográficos dessa região no topo da serra e começamos a descer em busca da Gruta do Índio.

 

Detalhe do Muro de pedras, feito sem argamassa.

 

Ao dobrarmos a serra, já por volta das 16h, iniciarmos a descida pelo seu lado oposto, rumo à Gruta do Índio. Dali, avistamos uma bela paisagem: o Pico do Gavião (em Luminárias) ao fundo e o distrito letrense de Sobradinho de Minas com sua igreja matriz aos seus pés.

 

 

Algumas das belas formações rochosas no topo da serra.

 

Iniciamos uma longa e dificultosa descida em um terreno bastante acidentado e não podíamos perder tempo, senão anoiteceria na volta e isso dificultaria nossa caminhada pela mata. Pelo caminho, íamos sempre nos hidratando e conversando sobre assuntos diversos. E por alguns instantes, também pudemos ouvir Pink Floyd enquanto caminhávamos por aquela paisagem diferenciada.

 

Já descendo rumo à gruta no lado oposto da serra, avistamos o Pico do Gavião ao fundo e o distrito de Sobradinho abaixo, à direita.

 

Na descida em direção à gruta, encontramos uma bela queda d’água com um pequeno poço, com muito pouca água nesta época de seca. Nesta descida, verificamos também vários veios d’água e leitos de pequenos riachos completamente secos pela estação.

 

Já na descida para a Gruta do Índio encontramos uma pequena cachoeira, quase seca com um belo e raso pocinho.

 

Os incríveis detalhes da Gruta do Índio

 

Maurício Kairuz retornava à Gruta do Índio após sua primeira visita, há exatos 25 anos. Mesmo após tanto tempo, ele era meu guia ali, pois já conhecia o local e detinha noção total da forma que deveríamos nos comportar naquele habitat completamente ermo e tão diferenciado. Assim como eu, meu amigo é um amante da espeleologia, tendo visitado diversas grutas, especialmente, na região de São Tomé das Letras e Luminárias, detendo equipamentos e demais recursos para realizar suas incursões em matas e cavernas.

 

Principal entrada para a Gruta do Índio.

 

Ainda distantes, ele avistou a possível localização da gruta e conferimos pelos GPS que era ali mesmo: sua entrada ficava escondida em meio a uma mata bastante fechada, numa espécie de buraco que se abria e entrava para dentro da terra. Curiosamente, ao adentrarmos à gruta, o cachorro Toby que nos acompanhava, inclusive, nos terrenos mais acidentados, não nos seguiu. Ele ficou do lado de fora esperando a gente sair.

 

A principal boca da gruta possui cerca de uns três metros de diâmetro, havia também outras duas entradas por claraboias ao longo de seu corredor. Sua entrada me lembrou também a de outra gruta que visitei por algumas vezes aqui na região, inclusive, numa destas, com a presença de Maurício Kairuz: a Gruta da Bruxa, localizada na vizinha cidade de Luminárias, com acesso por Sobradinho de Minas. Igualmente, sua entrada principal se localiza numa descida bastante íngreme.

 

A entrada da gruta vista pelo lado de dentro.

 

A Gruta do Índio possui um solo arenoso, composto por uma fina areia branca (proveniente do quartzito moído), além de pedras, sempre pequenas. Seus corredores são espaçosos confortáveis e não claustrofóbicos. Seu teto está a uma altura que varia de alguns centímetros na sua parte final, até poucos mais de três metros, em média, noutros locais. Possui somente uma saída para o lado, criando uma curiosa sala à esquerda de quem está entrando, onde parecia haver uma claraboia que teria sido intencionalmente fechada com uma grande pedra.

 

Início do corredor principal da gruta.

 

Uma fauna parca, distinta e exótica

 

Essa gruta possui uma parca, mas curiosa fauna, composta por espécies distintas. À medida em que fomos adentrando o seu interior, verificamos grupos de morcegos enormes pousados no teto, que iam se desfazendo e voando para outros locais da gruta durante a nossa passagem. Tomamos os devidos cuidados com as fezes destes animais, depositadas sob os locais onde se agrupavam. Alguns voavam rapidamente e muito rentes às nossas cabeças, criando um ventinho gelado na rápida passagem por nós.

 

Espécie de morcego acinzentado que habita o interior da gruta.

 

Observamos que estes morcegos da gruta são da cor cinza, de porte bem maior que os pequenos morcegos negros silvestres comuns. Não soubemos identificar se são silvestres ou carnívoros, podendo ser carnívoros pelo porte avantajado. Verificamos algumas fêmeas grávidas bem de perto. Ao aproximarmos de onde estavam, eles balançavam suas orelhas rapidamente em várias direções. Suas orelhas funcionam como antenas, e assim, eles constatavam nossa presença, fazendo com que alçassem voo para longe de nós.

 

Detalhe do interior da gruta: teto alto e espaços amplos.

 

Algumas dezenas de metros adentro, o breu já era total e assim, seguimos confiando na luz das lanternas e verificando os detalhes do solo, paredes e teto. E claro, observando a estranha fauna de um local completamente sem luz. Lá dentro parecia um outro mundo, no qual o Sol jamais tocou. Em alguns trajetos havia um pouco de água no solo, sendo esta mesma água a origem da formação desta gruta ao longo dos milênios. Na verdade, ela ainda está em formação pela ação das águas fluviais que escoam ainda pelo seu interior, especialmente na temporada das águas.

 

Este autor no interior da gruta.

 

Aproximadamente a uns 100 metros em seu interior encontramos uma cena inusitada: muitíssimas formigas saúvas em fila indiana vinham do fundo da gruta, carregando pedaços de folhas e talos de plantas verdes em direção à entrada da gruta. Ficamos sem saber de onde elas estariam vindo com aquelas folhas, já que no fundo da gruta não havia plantas e somente um solo arenoso.

 

Formigas saúvas carregavam pedaços de plantas verdes, vindas do fundo da gruta, onde não havia plantas.

 

Chegando mais alguns metros adiante, atingimos o fundo da gruta, onde seu teto baixa e só se chega rastejando. Toda a extensão foi percorrida por nós em pé. Com seus corredores amplos, calculamos que a Gruta do Índio possua cerca de 180/200 metros de extensão em seu corredor central. Deste, sai também um canal que leva a uma pequena gruta, muita parecida com uma sala. Ao longo de seu canal, ligeiramente acidentado, constamos duas claraboias que servem também como entradas para a gruta.

 

Kairuz observa se há alguma pintura no teto.

 

Além das formigas também constamos colônias de uma espécie de aracnídeo, típica de locais sem luz, chamada de opilião. Se trata de um aracnídeo, bem parecido com aranhas de pernas longas e finas. Estes opiliões, que mais parecem aranhas pré-históricas, são animais característicos de ambientes sem luz e podem picar, se forem incomodados.

 

A gruta abriga também populações de opiliões, uma espécie de aracnídeo que vive em locais profundos e sem luz.

 

Já bem em seu interior, em um buraco na parede da gruta, constamos também um sapo da família Bufonidae, do gênero Rhinella, também conhecido como sapo Cururu. Suas cores fortes naquele ambiente praticamente sem luz indicam que ele possui toxina (bufotoxina). Mas não é considerado perigoso, pois não realizada ataques, e sua toxina só é expelida somente quando ele é apertado.

 

 

Detalhe do sapo da família Bufonidae, conhecido também como Cururu.

 

Este sapo que foi localizado numa zona disfótica da gruta (com pouca luz) tem hábitos vespertino e noturno, mas durante o dia procura se esconder da luz. Este exemplar estava confortavelmente alocado numa toca na parede bem no interior da gruta, a dezenas de metros da entrada, num local bem escuro.

 

Por cerca de uns 40 minutos, percorremos toda a extensão da gruta. Fizemos registros de imagens em fotos e vídeos no interior da gruta e após isso, buscamos a saída de volta. Ao saímos de lá já eram 17h20 e precisávamos nos apressar um pouco para que o anoitecer não nos pegasse ainda na serra, pois estávamos 20 minutos atrasados pelo nosso cálculo de tempo.

 

Ao voltarmos reencontramos o Toby, que nos esperava ansiosamente e contornamos a serra, em vez de subirmos e nos desgastarmos pelo mesmo caminho acidentado por onde viemos. Assim, em um terreno praticamente plano, conseguimos contornar a serra rapidamente e assim, buscar sua face voltada para a região da Picada, de onde viemos.

 

Quando a noite caiu, felizmente, já havíamos atingido a Estrada da Picada, e assim, concluímos com sucesso todo o cronograma previsto para a região visitada.

 

O cão Toby, nosso companheiro de jornada, ao lado de uma flor típica do cerrado mineiro.

 

Um alerta aos amantes da espeleologia

 

Alertamos que, ao visitar os locais descritos nesta matéria é preciso sempre contar com a presença de um guia turístico credenciado e conhecedor da região. É inevitável o uso dos devidos equipamentos, (como vestimentas/calçados/capacete/lanternas/primeiros-socorros e água), além de um pouco de preparação psicológica e calma para se comportar em ambientes fechados, escuros e na possível presença de animais selvagens.

 

*  Pepe Chaves é jornalista e editor do diário digital Jornal São Tomé Online e da Rede de Portais ZINESFERA.

 

- Colaborou: Maurício Kairuz.

 

- Fotos: Pepe Chaves/Maurício Kairuz.

 

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