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Entrevista

Entrevista com Rubens Junqueira Villela

Meteorologista, Professor aposentado do IAG-USP 

 

Por Pepe Chaves

Para Via Fanzine

BH-19/10/2015

 

Villela: 'Nas minhas 12 viagens [à Antártida], começando em 1961, deu para perceber, sim, e documentar fotograficamente, algumas mudanças sensíveis, como na região em que fica a Estação Antártica Comandante Ferraz".

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Rubens Junqueira Villela, 85 anos, é meteorologista e professor, natural e residente em São Paulo-SP, possui graduação em B.S in Meteorology pela Florida State University (1957) e mestrado em Meteorologia pela Universidade de São Paulo (1985), atuando principalmente nos seguintes temas: meteorologia aeronáutica, climatologia, meteorologia aplicada, projeto de aeroportos. Foi docente na Universidade de São Paulo (USP), onde se aposentou como professor. Como cientista, participou em nove expedições do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR) e esteve presente na inauguração da Base Brasileira "Comandante Ferraz", em 1984, no continente Antártico. Nesta entrevista gentilmente concedida pela internet, ele nos fala um pouco de suas convicções acerca da mudança climática em todo o planeta.

  

Via Fanzine – De modo geral, podemos afirmar que o clima global sofreu mudanças perceptíveis ao homem nas últimas décadas ou o que tem se falado neste sentido é apenas “badalação” da mídia?

Rubens Villela – As mudanças são reais e perceptíveis, não só para especialistas como para observadores atentos. No meu caso, a experiência de análise diária e estudos atmosféricos estende-se desde 1953. Assunto desta natureza, com consequências que ameaçam a própria sobrevivência da espécie, não deveria ser motivo de “badalação” ou outro palavreado irresponsável do tipo.  

 

Via Fanzine – Alguns fatores novos têm surgido e, por vezes, são associados ao clima. Por exemplo, muito tem se falado do excesso de energia em micro-ondas na atmosfera pela telefonia celular, tevê e comunicação em geral. De fato, isso pode alterar a formação de nuvens, visto que a água é diamagnética e reage a campos magnéticos?

Rubens Villela – Existe sim “pequenas causas, grandes efeitos”, mas no caso da radiação eletromagnética emitida pelas fontes citadas, não há evidências de efeitos no clima (já na saúde humana, é outra questão). Radiações poderosas como raios cósmicos (naturais) têm efeito ionizante e podem influir na formação de nuvens e de chuvas, pela geração de núcleos de condensação que promovem a agregação do vapor d’água atmosférico. O programa antártico brasileiro acaba de inaugurar um observatório autônomo de raios cósmicos a 670 km do Polo Sul, que justamente vai fazer pesquisa pioneira sobre a relação entre os raios cósmicos e a formação de nuvens.

 

Via Fanzine – Outro ponto bastante debatido ultimamente é o chamado projeto HAARP, uma experiência militar americana para estudos sobre a ionosfera terrestre. Estas experiências podem estar influenciando de alguma maneira sobre o clima natural do planeta?

Rubens Villela – Acho inaceitável o enorme exagero que volta e meia aparece em certas mídias sobre o projeto HAARP. Este foi iniciado por cientistas da universidade do Alaska que também trabalham na Antártida, injetando elétrons para criar manchas de carga elétrica reforçada em partes da ionosfera a grande altitude e ver o efeito sobre a propagação de ondas de rádio. Outro exemplo de influência humana na alta atmosfera, e talvez mais palpável, é a emissão de 60 hertz dos linhões de transmissão de eletricidade, que provocam precipitação de elétrons, drenando a magnetosfera – fenômeno bem observado e medido no Canadá. 

 

Via Fanzine – Alguns pesquisadores também apontam para possíveis alterações climáticas em várias partes do planeta, por efeito do clima externo. Ou seja, as atividades e erupções solares, de algum modo exercem influências no clima da Terra?

Rubens Villela – Vamos evitar confusão: clima, no conceito geográfico, é o estado habitual do tempo em diferentes regiões do planeta, e não fora dele – embora tenha entrado em uso a expressão “clima espacial”, por falta de melhor termo. O sol é a principal fonte de energia dos processos atmosféricos e é natural esperar uma influência das erupções solares, mas o certo é que existem outros fatores com influência muito maior e comprovada, como as erupções vulcânicas, aqui na Terra mesmo.

 

Via Fanzine – Um fato notório é a diminuição das chuvas na região Sudeste do Brasil. Qual seria a causa da diminuição de água em vários reservatórios desta região?

Rubens Villela – As chuvas (precipitação) é um dos fatores meteorológicos que apresentam a maior variabilidade. Perguntam-me sobre “diminuição”, mas em qual sentido? Tem havido chuvas muito fortes também nesta região, com alagamentos! Talvez em 30 anos nós saberemos realmente se as precipitações no Sudeste diminuíram. O que os estudos científicos dizem é que o aquecimento global deve ser acompanhado com a maior irregularidade da distribuição das chuvas, no tempo e no espaço. Outros estudos mostram que o desmatamento, ao destruir fontes de umidade atmosférica, contribuem para a redução de chuvas, não apenas locais mas à distância. Uma floresta imensa como a amazônica influi até nos ventos, o mecanismo de transporte da umidade.

 

Via Fanzine – O senhor se lembra de outras ocasiões quando a escassez de água chegou a ser tão preocupante como atualmente em nosso país?

Rubens Villela – Lembro de 1969 por exemplo, outra crise em São Paulo. Também em 1963, e em torno de 1944. E de vários anos no Nordeste brasileiro, gerando insegurança social, êxodos, frentes de trabalho etc. Mas os episódios observados neste milênio são mesmo alarmantes, pela intensidade, frequência e abrangência.

 

Via Fanzine – E, na medida em que este panorama se agrava, como o senhor vê o empenho dos governantes e demais gestores públicos, no sentido de se buscar uma solução para a escassez da água?

Rubens Villela – De fato, se nota este empenho, o que é uma boa notícia. Por exemplo, as autoridades do estado da Califórnia, nos EUA, se mostraram muito conscientes do problema da seca que lá se prolonga por quatro anos, e têm agido objetivamente, de várias formas procurando contornar e controlar a crise hídrica. No nosso estado de São Paulo, acho que nossas autoridades também têm reagido de forma responsável, através da Secretaria de Recursos Hídricos que conta com técnicos muito competentes, o mesmo na SABESP.

 

Via Fanzine – Neste atual cenário brasileiro, qual seria o conselho que o senhor daria aos gestores da água em nosso país?

Rubens Villela – Bem, deixo as respostas para os verdadeiros especialistas, tais como os que acabo de citar no nosso estado; já que hidráulica não é a minha especialidade.

 

Via Fanzine – Apontado por muitos como outra anomalia dos tempos atuais, o fenômeno da transgressão do mar tem sido notado em várias cidades litorâneas do mundo. No Brasil, o distrito fluminense de Atafona que teve várias construções tragadas pelo mar nos dá um claro exemplo disso.

Rubens Villela – Em Atafona é um fenômeno natural conhecido há mais de 60 anos. Mas a elevação acelerada do nível do mar, associada ao aquecimento dos oceanos (parte do aquecimento global), contribui para agravar o fenômeno em muitas áreas costeiras mundiais.

 

Via Fanzine – Será possível que várias cidades litorâneas do mundo possam ser redesenhadas nas próximas décadas ou séculos, por conta da elevação do mar?

Rubens Villela – Acredito que sim, pelo que tenho lido, mas novamente, o assunto foge um pouco da minha competência.

 

Via Fanzine – Durante suas viagens à Antártida o senhor pôde observar alguma alteração climática? E ainda, da época em que o senhor lá esteve, até hoje ocorreu, de fato, algum descongelamento considerável da calota polar?

Rubens Villela – A calota polar austral é imensa, a mudança pode não ser facilmente perceptível (na calota boreal é mais fácil perceber). Mas nas minhas 12 viagens, começando em 1961, deu para perceber, sim, e documentar fotograficamente, algumas mudanças sensíveis, como na região em que fica a Estação Antártica Comandante Ferraz. Neste setor é onde têm sido observados os maiores aumentos de temperatura em todo o continente antártico. Entretanto a quantidade de gelo é vasta, e enquanto a “fábrica” de gelo continuar funcionando, talvez ainda leve uns 100 anos para se notar uma catástrofe mais apocalíptica, que deve ser evitada a todo custo.  

 

Via Fanzine – Uma das poucas coisas que o homem ainda não dominou no planeta foi o clima. No entanto, vários esforços de geoengenharia têm sido desenvolvidos neste sentido. Será possível ao homem, dentro de um futuro breve, manipular os elementos de sua atmosfera?

Professor Villela – Já estamos manipulando, se bem que de forma inadvertida, em grande parte. E no nosso presente estágio de conhecimentos científicos, uma intervenção intencional, do tipo da geoengenharia, seria ainda extremamente perigosa, por falta de controle das consequências. É coisa para outro milênio (salvo ações muito localizadas, como reflorestamento).

 

Via Fanzine – Caro professor Rubens Junqueira Villela, enfim, o aquecimento global é uma lenda ou um fato?

Rubens Villela – Ora, já dei a entender a resposta no início, este tipo de pergunta, a esta altura do campeonato (última revisão do Painel da ONU, o IPCC) não deveria mais ter cabimento, nem mesmo como brincadeira, embora a teimosia humana, entre os próprios especialistas, não tenha limites...

 

Via Fanzine – Agradecemos pela entrevista e pedimos para nos deixar suas considerações finais.

Rubens Villela – A capacidade humana de avaliar e entender alterações ambientais tem evoluído muito. Mas parece que nem mesmo a visão que ganhamos – na sua beleza, pequenez e isolamento - da Terra vista do espaço, foi suficiente para universalizar uma consciência planetária entre nós. Talvez só mesmo uma invasão alienígena nos forçaria a isso... Primeiro, a ganharmos consciência do lugar em que moramos, segundo, qual a relação entre nós e os mundos de onde provêm os visitantes cósmicos que nos visitam.

 

* Pepe Chaves é editor do diário digital Via Fanzine e da ZINESFERA.

 

- Imagens: Arquivo Via Fanzine/RJV.

 

- Produção: Pepe Chaves.
 

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