Minas Gerais

 

Construções líticas:

Os antigos muros de pedra de Itaúna

Se os moradores locais não têm esta consciência sobre os muros,

caberia a “alguém” orientá-los e neste sentido, este “alguém” não seria

outro, senão os próprios representantes do poder local constituído.  

 

  Por J. A. FONSECA*

De Itaúna-MG

outubro/2014

 

Detalhe do muro número 2 serra da Mata da Onça, o local guarda

dois muros que fazem a divisa de um terreno da Prefeitura de Itaúna.

Assista: TV FANZINE Especiais sobre muros de pedras em Itaúna

TV FANZINE - Assista entrevista exclusiva com J.A. Fonseca

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Nunca será demais falar dos muros de pedra em Itaúna e, sob a sugestão do editor Pepe Chaves, decidimos que seria útil voltar a abordá-los e rememorar as nossas observações e estudos que foram feitos em campo, através de visitas a algumas destas estranhas construções.

 

Nosso receio hoje é que com o crescimento populacional e a expansão do perímetro urbano, estes heroicos resistentes ignotos venham desaparecer por completo como já tem ocorrido em alguns casos observados por nós. Parte deste perigo iminente vem da própria população desinformada sobre o valor histórico destes muros antigos que são dilapidados com a retirada de suas pedras para uso em construções ou outras finalidades. E, parte, pela falta de atenção das autoridades locais que não os têm considerado como algo de relevância para estudos e preservação.

 

Nossa aguerrida e renovada discussão sobre estas construções tem sido um modesto instrumento de defesa pela sua manutenção, mas é somente o que temos e podemos utilizar. Causa-nos uma sensação de impotência e de certo descontentamento vermos que este patrimônio cultural itaunense está se esvaindo aos poucos e sendo lançado na vala comum das coisas sem importância, até que seja apenas uma sombra, um boato ou uma lembrança na mente de alguns poucos moradores que no passar do tempo também desaparecem e caem no esquecimento.

 

Registramos alguns destes muros e queremos neste artigo dar novo destaque a detalhes para relembrar a memória daqueles esquecidos moradores destas terras que os construíram, seja quem for, porque a discussão não se escora apenas nesta premissa. E também, recordar às autoridades sobre os seu valor histórico, ignorado por muitos ou esquecido por causa de sua singeleza ou ainda, por não se interessarem pelo passado destes rincões brasílicos.

 

Apesar de mantermos o pensamento sobre as nossas primeiras avaliações que fizemos dos muros de Itaúna, quando afirmamos que estes poderiam estar relacionados a um passado bem mais remoto, uma vez que é voz geral que tratam-se de construções feitas pelos escravos, julgamos hoje que estas hipóteses são de somenos importância.

 

Mesmo que no todo ou em parte eles estejam ligados a antigos povos destas terras, o mais importante é que se tratam de ‘resíduos’ históricos relacionados a um tempo, seja de períodos escravocratas ou ainda a antigas construções que tenham sobrevivido de eras bem mais anteriores. Estes fatores não importam e estas construções serão sempre relevantes, quaisquer que sejam as hipóteses adotadas para a sua preservação e conhecimento de todos.

 

Se os moradores locais não têm esta consciência sobre os muros, caberia a “alguém” orientá-los e neste sentido, este “alguém” não seria outro, senão os próprios representantes do poder local constituído.  

 

 

Este autor e o editor Pepe Chaves na serra

Mata da Onça em foto de Ícaro Chaves.

 

A seguir, mais detalhes dos muros que ali identificamos. as duas primeiras imagens são do muro número 2, que corta a serra no sentido horizontal, a última imagem é do muro número 1, que desce a serra em sentido vertical. Note-se que são distintos, bem construídos e possuem pedras representativas na base.

 

 

 

 

 

Desde o ano de 2002, eu e o amigo Pepe Chaves temos nos debruçado também neste problema dos muros e fizemos visitas a algumas destas construções pertencentes ao conjunto local, produzindo registros em fotografias e vídeos. Também juntamente com o nosso amigo Alvimar Viana, visitamos um muro no local denominado Retiro dos Pinto, na localidade de Ponta da Serra, no município de Itatiaiuçu, próximo a Itaúna.

 

Anteriormente, nós escrevemos alguns artigos abordando o assunto e agora decidimos retomá-lo, movidos que estamos pela preocupação com o destino que estes velhos monumentos possam ter. É nosso pensamento que a historia de uma região está sempre aureolada por lembranças de seu passado e que quanto mais elementos deste pudermos preservar, melhores condições nós teremos para estudá-los, bem como orientar aos turistas, jovens e moradores locais, com a apresentação de arquivos que justifiquem e enriqueçam os relatos desta história que chegou até os tempos atuais.

 

Em nossas visitas às construções líticas de Itaúna avaliamos sob o enfoque da pesquisa em campo, que muitas poderiam ser bem antigas, dada à sua posição em localidades estranhas para a época. Corrobora esta ideia, a população não tão expressiva de escravos homens que pudessem ter construído tantos muros em locais distintos e afastados por todo o território itaunense.

 

Um estudo feito por especialistas, pensamos, poderia mostrar uma avaliação mais correta de sua longevidade. E, até mesmo, determinadas escavações, próximas aos muros poderiam trazer à luz, novos e convincentes elementos de sua presença na região.

 

Diante de nossas observações em campo, continuamos com a percepção de que tais construções seriam anteriores aos períodos de escravidão [abolida em 1888], conforme já expusemos. Além disso, estes não poderiam ser também atribuídos, de forma alguma, aos povos indígenas que aqui viveram antes do surgimento do arraial de Sant’Ana de São João Acima.

 

Decidimo-nos então, retomar o assunto e estamos publicando fotografias de vários muros construídos em localidades distintas. Mesmo bem distanciados uns dos outros, estes utilizam uma técnica semelhante na sua feitura, guardando também certos detalhes e cuidados na sua execução, como pedras de grande porte que foram manuseadas nestas construções. Em muitos casos, podemos notar um maior esmero na elevação dos muros.

 

A seguir, detalhes do muro encontrado na localidade de Vale dos Pequis, na região da Barragem do Benfica. Suas pedras são bem ajustadas e possuem algumas de grandes proporções em sua base.

 

 

 

 

Outros pesquisadores não itaunenses também se interessaram e opinaram sobre estas construções líticas. O arquiteto e pesquisador arqueológico Carlos Gomar, uruguaio radicado no Rio de Janeiro, em seu comentário sobre os muros de Itaúna diz ter observado pelas fotografias e vídeos que havia “(...) um muito bem feito com pedras bem ajustadas entre si sem argamassa, com algumas pedras parecendo que foram talhadas em bruto para aquela posição. Esse é o tipo mais significativo, para mim é o mais intrigante. Porque um muro divisório no campo não precisa de grandes sofisticações”, observou o pesquisador.

 

Gomar sugere que parte destes muros poderiam já estar aí antes do período colonial e teriam sido aumentados ou trabalhados posteriormente. Nada pode ser descartado, mas o fato de estarem presentes nesta região merece que deles sejam tiradas avaliações mais conclusivas, com estudos locais e busca de elementos que possam explicar a sua existência. Conforme Gomar observa, muitos destes possuem pedras de proporções maiores, apresentando trabalhos de acabamento bem delineados, ou seja, determinadas pedras foram talhadas com mais cuidado e assentadas com precisão.

 

Oleg Dyakonov, estudioso arqueológico e correspondente de Via Fanzine em Moscou, Rússia, também discorreu sobre estes muros itaunenses em seu artigo “A necessidade de preservação aos muros de Itaúna”, no qual relaciona a incidência de muros semelhantes em várias partes do mundo. De acordo com o pesquisador russo, “No entanto, as principais características destes muros, que os fazem pelo menos em parte homólogos aos de Itaúna, estão presentes em todos os casos: pedras ou rochas toscas, alvenaria muito espessa, baixa altura e ausência de qualquer tipo de argamassa. Em todos estes casos, está presente, provavelmente, a principal característica de tais construções: a atmosfera de mistério e controvérsia, escondendo-nos a sua verdadeira história”.

 

E ainda observa Dyakonov, “Pertencendo o objeto arqueológico a um passado recente, neste caso, ao período colonial brasileiro, de modo algum o torna menos importante. Neste caso, o papel do objeto em questão na história seria diferente, mas isso não significa um valor histórico inferior, muito menos, a falta do valor como tal. O grau desse valor só pode ser avaliado pela ciência, e essa avaliação não apenas está entre as possibilidades da arqueologia oficial, mas entre as suas primeiras obrigações”, lembrou Dyakonov.

 

Em seu artigo, Oleg Dyakonov cita a Carta de Lausanne (Suíça) de 1990, que é uma continuação da Carta de Veneza (1964) e trata da Proteção e Gestão do Patrimônio Arqueológico, onde “afirma explicitamente que o requisito para a conservação do patrimônio arqueológico é definido por sua importância científica e não se limita apenas à sua ‘notabilidade ou atração visual’”.

 

Também menciona que “outras disposições não menos relevantes constam da mesma Carta” e cita alguns dos seus principais trechos que vale aqui destacar a seguir, diante de nosso caso dos muros de Itaúna. 

   

“A proteção do patrimônio arqueológico deve ser considerada como uma obrigação moral para todos os seres humanos; é, também, uma responsabilidade pública coletiva.

 

[…] A legislação deve ser baseada no conceito de patrimônio arqueológico como patrimônio de toda a humanidade e de todos os grupos de pessoas, não sendo restrito a qualquer pessoa individual ou a qualquer nação.

 

[…] A legislação deve proibir a destruição, a degradação ou a alteração através de modificações, de todos os sítios arqueológicos e de todos os monumentos, ou das suas envolventes, sem o consentimento de uma autoridade arqueológica.

 

[…] As obras de desenvolvimento constituem uma das maiores ameaças físicas para o patrimônio arqueológico. Deve, portanto, ser incorporada em legislação apropriada, uma obrigação para os promotores garantirem que são feitos estudos de impacto sobre o patrimônio arqueológico antes de serem implementados os esquemas de desenvolvimento, estipulando que os custos de tais estudos devem ser incluídos nos custos da obra. Também deve ser estabelecido na legislação, o princípio de que os esquemas de desenvolvimento devem ser projetados de forma tal que seja minimizado o seu impacto sobre o patrimônio arqueológico, afirma o documento.

 

A seguir, detalhes do muro construído nas proximidades do bairro Cidade Nova, ameaçado pela proximidade de novos bairros em sua área.

 

 

 

 

Portanto, se torna notório que os tais muros itaunenses devem ser preservados para estudos específicos e considerados como um relevante instrumento de pesquisa para determinar com mais clareza a sua origem e presença por estes lados do Brasil. Além disso, urge identificar onde mais tais estruturas pétreas se acham localizadas, objetivando interligá-las entre si por meio de mapas, procurando compreender a sua estranha presença na região, como quem os poderia ter construído e com qual finalidade.

 

Os muros visitados por nós não chegam a cercar terrenos, porque são apenas construções retilíneas em determinados lugares. Não cercam nenhuma área específica, pelo menos na situação em que se encontram.

 

No entanto, os muros registrados por Pepe Chaves em uma solitária expedição à uma serra no caminho do distrito itaunense de Lopes, são uma exceção. Muito extensos, antigos e preservados por um local de difícil acesso e muita mata, s três muros próximos formam uma espécie de T, consistindo em um entroncamento inédito de três muros de uma mesma altura. Detalhes destes muros podem ser vistos a seguir, nas fotografias tomadas por Pepe Chaves.

 

 

No muro Número 1, que sobe a serra da Mata da Onça - o qual divisa um terreno da Prefeitura de Itaúna - existe um rebaixamento de um de seus lados, uma vala não muito profunda e ele se encontra com outro muro, em sentido horizontal, em um ponto mais no alto da serra.

 

Certa parte dos muros da Mata da Onça não parece ser um arrimo, mas parece estar soterrada. E estes não parecem cercar terreno algum, pois acabam bruscamente após seguir por cerca de dois quilômetros mata adentro. Em outros lugares em que estivemos, o muro só percorre certa distância e termina. Não faz o fechamento de nenhuma área específica e, concluímos que parte destes poderia ter sido desmontada ou sua finalidade nos escapa neste momento.

 

Se olharmos pela lente do descaso, certamente que não iremos dar importância a estas coisas e não teremos tempo de observar certos detalhes na construção dos muros e nem perceber que a sua elevação demandou tempo considerável com o corte das pedras, com o seu transporte e com o seu assentamento sistemático, em locais específicos. São pouco compreendidos por nós, mas que deveriam ter elevado grau de importância no tempo em que foram erigidos e pelos povos que os conceberam.

 

Este cuidado e os assentamentos bem ajustados podem ser observados nas fotografias que anexamos ao artigo.

 

A seguir, detalhes do muro construído no Retiro dos Pinto, região de Ponta da Serra, Itatiaiuçu, quase na divisa de com Itaúna.

 

 

 

Há uma razão para que estes muros de pedra estejam ali onde estão e esta causa nos escapa duas vezes diante da avaliação apressada que costumamos fazer sobre as coisas, principalmente, quando fogem do nosso principal foco de interesse: a primeira escapatória é por não sabermos do que se trata; quem os teria construído e por que os fizeram; e, a segunda, é por não estarmos conseguindo preservá-los e estarmos vendo desaparecerem um a um, antes que pudéssemos saber as causas de estarem ali, mudos, durante tanto tempo, indicando uma história antiga para esta região que insistimos em não querer enxergar. 

 

A continuar sem providências cabíveis por parte das autoridades para a preservação dos muros de pedra de Itaúna, em breve seus remanescentes serão como muitos outros, apenas boatos, fantasmas insepultos vagando pelas mentes dos mais antigos moradores da região. Totalmente esquecidos ou ignorados pelos mais jovens que, ao deles ouvirem falar, caso isto ocorra, desacreditarão do que lhes contaram, uma vez que já não possuiremos quaisquer elementos, sequer diminutos resquícios de sua presença por estas paragens. Inclusive, como ocorre já em muitas outras localidades de nosso país, obnubilando as páginas já rotas de nossa esquecida história e de passados recentes ou remotos.

 

* J.A. Fonseca é economista, aposentado, espiritualista, conferencista, pesquisador e escritor, e tem-se aprofundado no estudo da arqueologia brasileira e  realizado incursões em diversas regiões do Brasil  com o intuito de melhor compreender seus mistérios milenares. É articulista do jornal eletrônico Via Fanzine (www.viafanzine.jor.br) e membro do Conselho Editorial do portal UFOVIA. E-mail: jafonseca1@hotmail.com.

 

- Fotografias: J. A. Fonseca.

 

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Esta matéria foi composta com exclusividade para Via Fanzine©.

 

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